Um atleta de futsal está demonstrando, por meio de sua vida, como a decisão de seguir um sonho tem força suficiente para vencer inúmeras adversidades que aparecem na jornada. Mesmo depois de ser rejeitado em clubes de futebol, pendurar as chuteiras por um tempo e “não ter 1 real no bolso”, Matheus da Silva Ferreira, o Matheus Paulista, hoje joga na Europa. Aos 27 anos, defende um time da primeira divisão húngara.

Renato Padilha

Antes de sair do país, fixo atuou no Rio Grande do Sul

Há menos de dois meses na Hungria, o atleta tem novos desafios a serem superados. Esses parecem “fichinhas” perto do que já viveu. Matheus treina sob temperaturas abaixo de zero e está em um país com um idioma bem diferente. Na língua da bola, segue mostrando por que vem recebendo chance atrás de chance nos últimos anos. Marcou dois gols na estreia pelo Nyírgyulaj, há cerca de 10 dias.

Viver da bola era o desejo do menino de Presidente Epitácio – interior paulista. Mas ele imaginava um contexto diferente. Pensava em se tornar um jogador de futebol, e não de futsal. Jogou vários campeonatos na infância e adolescência. Na juventude, fez testes em clubes de Presidente Prudente e Marília. Não passou em nenhum.

Consequência? Aquele jovem desistiu do sonho e ingressou em uma faculdade, em Prudente, onde iniciou o curso de educação física. Quando menos esperava, apareceu uma nova chance de voltar para as quatro linhas, só que dessa vez nas quadras.

– A transição do futebol para o futsal começou quando eu ainda era estagiário da Divisão de Esportes de Epitácio. Fui defender minha cidade nos Jogos Regionais, em Osvaldo Cruz. Como eu tinha passado da idade permitida para o torneio de futebol, decidi ir jogar pelo futsal, já que essa modalidade é livre.

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Em Pompeia, dificuldades eram grandes, porém ocorreu a retomada do sonho

Nos Regionais de 2015, o futsal epitaciano se destacou e chegou à final. Na decisão, o fixo chamou a atenção do treinador rival Milton Vaz, que o convidou para jogar pelo Pompeia Futsal. A vontade de ir em busca do sonho foi retomada, mas os desafios estavam apenas no início.

– Na época que eu comecei a jogar, eu larguei o estágio na minha cidade, abandonei tudo, trabalho e faculdade. Recebia 100 reais de ajuda de custo, não sobrava dinheiro para nada, por muitas vezes menti para minha mãe sobre meu salário, sobre estar me alimentando bem. Em muitos momentos, recebi doação dos amigos.

Todo dinheiro ganho era para pagar as contas que fiz enquanto estava trabalhando como estagiário e, principalmente, para limpar meu nome. Não digo que passei fome, pois me alimentava com a comida que o time fornecia, mas quase, de não ter um real no bolso.

Mesmo com todas as dificuldades, o esportista seguiu na luta pelo Pompeia e chegou a disputar finais, como da Copa TV Tem. Conquistou dois títulos em cima do Bauru. Assim como aconteceu nos Regionais, o atleta chamou a atenção do adversário e recebeu, no final da temporada de 2016, o convite do técnico Everton Carvalho, o Alemão, para defender a equipe bauruense.

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No Bauru, jogador foi bicampeão da Copa TV Tem

Matheus jogou em Bauru em 2017 e 2018. No final do segundo ano pelo time, o fixo recebeu duas notícias importantes, uma boa e outra ruim. Houve a concretização da assinatura de contrato com uma agência, que o levou para o Palmas Futsal, onde disputou a primeira divisão paranaense, e sua mãe, Maria Lúcia da Silva, recebeu o diagnóstico positivo de câncer no estômago.

Essa é classificada como a maior luta de sua carreira. O Palmas não estava bem no campeonato e, por não conseguir estar próximo da mãe em um momento tão delicado, o desempenho em quadra caiu. Maria ajudou o filho a se levantar.

– Minha mãe, apesar da situação, sempre me deu forças, e eu prometi a ela que não deixaria a equipe ser rebaixada.

O atleta cumpriu a promessa e, individualmente, mais uma vez se destacou. Foi artilheiro da equipe e, posteriormente, convocado pela seleção paranaense, onde disputou o Brasileiro de Seleções. Para a felicidade e alívio dele e da família, a mãe venceu o câncer. A partir desse momento, a carreira mudou de rumo.

Ananda Cavalheiro

Passagem pelo Palmas foi de destaque

Após chamar a atenção de times pelo Brasil durante a passagem pelo Palmas entre 2019 até o meio de 2020, o fixo se transferiu para o Guarani de Frederico Westphalen-RS. No Sul, Matheus foi treinado por Flavinho Cavalcante, atual comandante do Dracena. Segundo o jogador, ele foi o melhor técnico com quem trabalhou. Juntos, alcançaram a semifinal da Série Ouro estadual.

A passagem pelo Guarani foi breve. Já com a carreira embalada e o sonho de criança adaptado e em plena realização, chegou a hora de romper fronteiras. A Hungria é a nova casa (até ele se destacar de novo).

– É muito gratificante ver que todo meu esforço e trabalho estão sendo recompensados. Tenho várias ambições, mas já sou muito grato por tudo que o futsal me trouxe. Está sendo muito melhor do que eu imaginava. Aquele menino que vivia nas ruas, jogando bola em Epitácio, hoje está no futsal da Europa, em um país incrível.

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Epitaciano atualmente defende time da Hungria